“Uma mulher disruptiva”. É assim que a pesquisadora Sandra Unbehaum, do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, define Elza Berquó na abertura do documentário de mesmo nome. Lançado pela FCC em abril deste ano, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o filme é uma homenagem ao centenário da pesquisadora que marcou o Brasil pela construção de uma demografia crítica e atenta às desigualdades sociais.

Graduada em Matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947, Elza concluiu o mestrado em Estatística na Universidade de São Paulo (USP) dois anos depois. Em 1959, formou-se Doutora em Bioestatística pela Columbia University, nos Estados Unidos.

Na década de 1960, de volta ao Brasil, iniciou um conjunto de pesquisas que mudariam a maneira de se entender os rumos da população brasileira, a partir de um olhar visionário para questões que ainda eram negligenciadas.

Na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP, hoje apenas Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), Elza iniciou suas pesquisas sobre fecundidade humana e criou, em 1966, o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip). Integrado à FSP, foi o primeiro centro dedicado a esse tema no país e contribuiu para a formação da primeira geração de pesquisadores especializados em Demografia.

No mesmo período, em 1965, ao analisar os padrões reprodutivos na cidade de São Paulo, Elza antecipou a tendência de queda de fecundidade que seria registrada para as mulheres brasileiras em nível nacional a partir da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, desenvolvida também por ela em 1968.

Por seu posicionamento crítico, especialmente no que se referia à mortalidade infantil, pouco tempo depois foi afastada da USP de maneira compulsória pelo regime cívico-militar. Mas, mesmo em condições adversas, Elza aplicou sua determinação e resistência ao fortalecimento das instituições e do conhecimento e, em 1969, participou da fundação do Cebrap, onde criou um programa de formação voltado especificamente para pesquisadoras negras e deu sequência às atividades da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana. É o exemplo de que “onde tem uma fresta, a gente entra. E onde tem uma fresta, há esperança”, como Sandra Garcia, antropóloga e demógrafa do Centro, comenta no filme.

Além de aspectos de gênero, raça e direitos reprodutivos e sexuais trabalhados ao longo de toda a sua carreira, Elza voltou-se ao acolhimento e ao estudo das juventudes e, em 2012, desenvolveu o projeto “Dar voz aos jovens”, financiado pela Fundação Carlos Chagas, em parceria com o Cebrap. A iniciativa fomentava a construção de narrativas sobre sexualidade, desejos, medos e inseguranças a partir da perspectiva de adolescentes e transformava-as em curtas-metragens. “O ‘Dar voz aos jovens’ tinha uma certa ousadia na metodologia e isso é uma característica muito forte da Elza”, explica Sandra Unbehaum.

Ousadia que se expressa também na condução da criação de múltiplos espaços institucionais para o fortalecimento da Demografia enquanto campo de pesquisa e de formação. Além do Cepid e do Cebrap, a pesquisadora liderou a fundação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) e do Núcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp). Na FCC, a pesquisadora fez parte do Conselho Curador por 31 anos e, atualmente, é membra de seu Comitê de Honra.

Para Rubens Murillo Marques, presidente de honra da FCC, “a Elza tem uma característica que é a de estimular o desenvolvimento e o crescimento dos outros”.

O filme traz, ainda, relatos de  outras pesquisadoras e parceiros de trabalho sobre sua vivência com Berquó e os projetos conduzidos pela pesquisadora.

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Sobre o documentário

O filme começou a ser produzido em 20 de setembro de 2025 pela M.HUB Estúdio Criativo e carrega o conceito “Entre lugares”, em sintonia com a atuação de Berquó nas áreas da matemática, demografia, causas sociais e fortalecimento institucional.

O material audiovisual está dividido em três partes: vida aos dados; projetos, pesquisas e instituições; e legado.

Confira o documentário completo no canal da FCC no YouTube.

Confira o Site em Celebração aos 100 anos da Dra. Elza Berquó

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